segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Porco embriagado!





Após uma pesquisa descobri que o poema foi publicado no Piauí em 1923, e o autor se chama Firmino Teixeira do Amaral. Mas ainda acho que o verdadeiro não seja o mesmo.

Vejam só que interessante e engraçado isso:

Quando bode era doutor
E cachorro advogado
Andava tudo direito
O mundo bem governado
A justiça muito reta
Ninguém vivia enganado!

O leão sempre foi rei
Casa com uma leoa
Jacaré seu secretário
Onça era uma grande pessoa
Mestre sapo professor
Na beira duma lagoa

Coelho chefe do mato
Peru era viajante
O galo, por ser tenor
Regia um café-cantante
Macaco bicho do rei
E urso rapaz amante

O porco era vagabundo
Passava o dia a beber
Por isso dele ninguém
Amigo queria ser
De toda festa que havia
Porco queria saber

Um dia, mestre coelho
Fez uma festa no mato
Foi cachorro e jacaré
Gente de mais aparato
Finalmente todo bicho:
Menos porco e mestre gato

Rato tocava flauta
Priquito no rabecão
Caititu no contrabaixo
Cururu no violão
Mucuim no clarinete
E tatu no bombardão

O pinto ia com os pratos
O carneiro com o tambor
Mosquito numa rabeca
Era quase professor
Mestre sapo, como chefe
Ia feito regedor

Quando o porco soube disso
Ficou muito injuriado
Disse ao gato: - "Vamos lá
Que eu garanto, por meu lado
Ou nós entramos na festa
Ou o baile está terminado"

O gato disse: - "Eu não vou
Porque acabo apanhando…"
O porco lhe respondeu:
- "Você bem que está mostrando
Ser um gato sem coragem…
Pois fique, que eu vou andando".

O porco, chegando lá
Queria o baile invadir
Jacaré veio e falou
Mandou o porco sair
Como não obedeceu
Foi preciso onça intervir

O urso logo zangou-se
Por a sua namorada
Que era uma anta bonita
E estava ali bem trajada
Por um porco vagabundo
Ser assim desrespeitada

Botaram porco pra rua
Mas ele tornou a entrar
Aí, já era demais
Impossível se aturar
Coelho puxou revólver
Para no porco atirar

O porco sacou da faca
Para matar ou morrer
Cotia teve um ataque
Paca queria correr
Galinha caiu sem fala
Durinha, sem se mexer

Raposa quase que morre
Mucura quebrou o braço
Lagartixa foi pisada
Quase ficou em pedaço
A cabra apanhou de pau
Se não corre, era bagaço

Barata correu pr’um canto
Não quis a vida perder
Preguiça estava num pau
Disse: - "Foi bom não descer…"
Canguru disse: - "O diabo
Quem não trata de correr…"

Girafa, como era grande
Estava tudo apreciando:
Quando viu, na sua costa
Arara estava trepando…
Ema disse: - "Eu vou me embora…"
Coruja saiu voando

Borboleta, há muito tempo
Já tinha se escapulido
Mosca fez sua viagem
Levou pium, seu marido
Garça disse: - "Vocês briguem
Mas não me suje o vestido…"

Aranha estava tremendo
E lesma morta de rir
Macaco olhou para um galho
Tratou logo de subir
Dizendo: -"Porco não trepa
Aqui nunca pode vir!"

Catraia gritava tanto
Que gritava à luz da lua
Minhoca não acertava
Para que lado era a rua
Curica ficou sem pena
Siriroca quase nua

Finalmente, a muito custo
Botaram porco pra fora…
Já tinha dado e apanhado
Por isso disse: - "É agora:
Antes que chegue a polícia
Vou tratando de ir-me embora!"

Com pouco veio o elefante
Que era, então, o delegado
Com camelo, seu colega
Oficial reformado
E, logo atrás o cavalo
No seu papel de soldado

Coelho aí contou tudo
Quanto tinha acontecido
Além disso, como ruim
O porco era conhecido
De forma que o elefante
Deu tudo por resolvido

Levou a queixa ao leão
Tal qual haviam lhe dado…
Aí foi expressa a ordem
De porco ser procurado
Mas por onde andava ele
Era o caso ignorado

No outro dia, a mucura
Também foi lá se queixar
Mostrou o braço pro rei
Que prometeu lhe vingar
Resolveram, então, ir todos
O tal porco procurar

Foram à casa do gato
Pois este era seu amigo
Gato dise: - "Este sujeito
Deu-me pancada e roubou-me
Deixou-me como mendigo"

Realmente, o gato estava
Com o corpo todo marcado
Não tinha nem um vintém
O baú estava arrombado
E o porco só lhe fez isso
Por não ter-lhe acompanhado

Levaram gato doente
À presença do leão
E o gato, gemendo muito
Pediu também punição…
Deste jeito, mestre porco
Estava mal de informação

Ganhava um conto de réis
Quem mestre porco pegasse
Teria um ano de folga
O soldado que o encontrasse
Fosse vivo ou fosse morto
O certo é que ao rei levasse

Andaram por mais de um mês
Sem saber-lhe o paradeiro
Até que, um dia, o acharam
Bêbado num atoleiro
Querendo dar no mucuim
Por não ser seu companheiro

O elefante e o cavalo
Deram a ordem do rei…
O porco lhes respondeu:
- "Eu aqui de nada sei
Eu, dentro da minha casa
Não sei o que diabo é lei"

O elefante, então disse:
- "Olhe, eu sou o delegado!
Aquilo que eu digo faz-se
Tem de ser bem respeitado…
Se você não for por bem
Mando levá-lo arrastado"

- "Eu irei (lhe disse o porco)
Mas só se for carregado…"
Não pôde dizer mais nada:
Já tinha sido amarrado
E para a casa do rei
Sem demora foi levado

Quando chegou, estava o leão
Sentado numa cadeira
(Ao lado estava a leoa
Sua fiel companheira)
Vendo o porco muito sujo
Falou-lhe desta maneira:

- "Porco imundo, qual a causa
De tu seres valentão?
Bem sabes que ser valente
Pertence ao teu rei leão!
Tenho de ti muitas queixas
Só de ruim informação"

Formou o leão um júri
Para o porco ser julgado
Foi quando este conheceu
Que o caldo estava entornado
A prova é que a seu favor
Nem porca tinha votado


Todos queriam que porco
Sofresse pena ruim…
Depois de tudo apurado
A contenda teve fim
Lavrou-se logo a sentença
Que foi deste jeito assim:

"Como justiça de rei
Sua majestade o leão
Manda fazer avisado
Que o porco, por valentão
Foi preso e está condenado
A trinta anos de prisão"

11 comentários:

  1. muitooo bacana uasuahs eu gostei

    ResponderExcluir
  2. égua neto... ele passava quantos dias contando essa história do porco cachaceiro? caraiooo mas é grande! hahaha
    beijo amico

    ResponderExcluir
  3. Égoa Neto, tu és o Porco Embriagado. Podes crer! hauahuahuahauhaujhauahuahuahuahauhauh

    ResponderExcluir
  4. Muito legal o seu blog! Vou recomendar no meu.
    Estou te seguindo no twitter também, sou o @agitasopas
    Um abraço!

    ResponderExcluir
  5. Minha avó querida também recitava este poema aos logos de seus quase 90 anos. Que memória! Procurei-o incansavelmente até encontrá-lo um dia após o seu falecimento. Quantas saudades sentirei de você, vó querida!

    ResponderExcluir
  6. Olá, sou mais uma caçadora de memórias, meu avô foi também um cancioneiro e um griot e embalou minha infância com esses versos.
    Te agradeço pela socialização, grande abraço!

    ResponderExcluir
  7. Eta mundão! Minha esposa Helenita que ouvia de seu pai esta história há muito queria a letra toda, já que parte se lembrava. Hoje trabalhei com afinco e cheguei aqui. Ela ficou maravilhada e feliz.
    Obrigado.

    ResponderExcluir
  8. Em decorrência de ter este poema um valor sentimental muito grande para minha esposa, gostaria de saber o que te levou a pesquisar sobre ele.
    Foi através de um sonho recente que me senti fortemente motivado para buscar esse poema.
    Ao acordar lembrei-me desse sonho!

    ResponderExcluir
  9. Prezado Neto:

    O título desde cordel é "A festa da bicharada", publicado pela editora LUZEIRO Ltda e é de Autoria de Arlindo pinto de Souza o ano da publicação é 1950. Tenho o livro em mãos. Abçs.

    ResponderExcluir
  10. Poxa, achei bacana de mais!!! Meu avô me contava esses versos quando eu era bem pequenina!!!! Ele nasceu em 1923.
    Muito legal mesmo!!!! Com certeza lerei pra meu filho e meus alunos!!!

    ResponderExcluir